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O que é tokenização de ativos

Registrar um direito sobre um ativo real ou financeiro numa plataforma programável. O token carrega o registro e as regras de transferência — e por isso ações, fundos e títulos passam a circular on-chain.

Nas notícias de hoje o TapeRadar falou de ações tokenizadas da Powerus na Solana, de crescimento de capitalização on-chain na Avalanche, de carteiras Intelligent Portfolios da Ondo, de fundos da Janus Henderson e da NYLIM na Arc via Centrifuge, e de uma pesquisa da Lloyds em que 71% das grandes instituições do Reino Unido veem a tokenização remodelar as finanças. O fio comum é o mesmo: colocar um direito econômico numa representação digital negociável.

No Relatório Econômico Anual de 2025, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) define tokenização como o processo de registrar, numa plataforma programável, claims sobre ativos reais ou financeiros que já existem num ledger tradicional. O trecho está em https://www.bis.org/publ/arpdf/ar2025e3.htm. Em linguagem de mercado: o token não é só uma linha numa planilha. Ele integra o registro do ativo com as regras e a lógica que governam a transferência desse ativo — por exemplo, só liberar a entrega se o pagamento for confirmado ao mesmo tempo.

Essa execução conjunta se chama liquidação atômica. O caso clássico é delivery versus payment (DvP): a transferência do ativo e a do dinheiro são condições uma da outra. No arranjo tradicional, mensagem, reconciliação e liquidação costumam rodar em sistemas separados, com ciclo de liquidação que ainda pode levar um ou dois dias úteis. Na plataforma tokenizada, as etapas podem virar um único pacote programável — o que reduz risco de contraparte e o trabalho de bater livro depois do trade.

Há dois desenhos práticos que aparecem nas matérias. No primeiro, o token é um recibo de um ativo que continua imobilizado fora da cadeia (por exemplo numa depositária ou num emissor autorizado): o titular do token tem claim sobre o ativo subjacente, e parte do serviço (cupom, assembleia, custódia legal) segue no mundo tradicional. No segundo, o ativo é nativo da plataforma — emitido e registrado nela — e então juros, colateral e liberação automática em caso de default podem ser embutidos no contrato. Ações tokenizadas 1:1, como as da Powerus via Backpack Securities, e fundos tokenizados que aceitam aporte em USDC ilustram o primeiro tipo no uso comercial recente; o volume on-chain citado nas matérias (cerca de US$ 8 milhões em quatro horas e cerca de US$ 12 milhões no primeiro dia, segundo a cobertura do Crypto Briefing sobre a Powerus) mede negociação do recibo, não “criação” de valor novo do nada.

O BIS também anota que a tokenização de títulos soberanos ainda é experimental, mas já há mais de 20 bonds tokenizados de soberanos, supra e agências, somando mais de US$ 4 bilhões em nove moedas — números do mesmo capítulo do relatório de 2025, com dados até março daquele ano no gráfico correspondente. Numa amostra pareada, o relatório aponta bid-ask médio de 17 pontos-base nos bonds tokenizados contra 30 nos convencionais; o próprio BIS alerta que a amostra é pequena. Ou seja: há sinal de liquidez semelhante ou um pouco melhor em alguns casos, sem garantia de que isso se generaliza.

Para o leitor: tokenizar não transforma, sozinho, um ativo ruim em bom, nem equivale a “comprar a empresa” se o desenho jurídico for só representação. Importa quem emite o token, qual o direito legal por trás, se há resgate ou lastro verificável, e em que rede e sob que regras de KYC o papel circula. A IOSCO, no relatório final de novembro de 2025 sobre tokenização de ativos financeiros (https://www.iosco.org/library/pubdocs/pdf/IOSCOPD809.pdf), trata a adoção como ainda nascente e destaca interoperabilidade entre blockchains e a falta de ativos de liquidação críveis como limites à escala — pontos úteis quando a matéria fala de “boom” de ações on-chain sem explicar a engenharia por baixo.

Fonte: bis.org

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